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i OPINIÕES

A gestão pública e os ativos intangíveis
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Uma nova gestão pública, baseada nos ativos intangíveis – e no conhecimento em particular – é possível. As propostas e caminhos estão se tornando cada vez mais concretos e claros. Alguns ainda acham que é um sonho. Até a hora em que não estivermos mais sonhando sozinhos.

Marcos Cavalcanti

13/07/2006


Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só.
Sonho que se sonha junto é realidade!
Raul Seixas


O planejamento público e privado ainda vive focado na era industrial. Normalmente os setores que são mais considerados para o nosso desenvolvimento são os tradicionais, como o da metalurgia e automobilístico, o de transformação e o naval, o do comércio atacadista e varejista, entre outros. Pensem em alguma política pública nos últimos 15 anos - incentivos fiscais, de promoção do emprego, de redução de alíquotas, etc. Quais os setores visados? Que entidades foram consultadas? Recentemente, iniciativa inédita do Ministério de Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio, definiu algumas áreas de alta tecnologia como prioritárias mas, por enquanto, a prioridade teve poucos reflexos na prática.

Para se pensar uma política de geração de empregos os governos procuram a Fiesp/Firjan e a CUT, quando mais de 70% do trabalho hoje está no setor de serviços e menos de 20% no setor industrial. O gverno dá incentivos fiscais para a indústria naval quando a indústria da cultura gera duas vezes mais renda e cinco vezes mais emprego, só no Estado do Rio de Janeiro!

A miopia está no fato de se governar com base em uma visão totalmente ultrapassada, como se ainda vivêssemos numa sociedade industrial.  Esta sociedade em extinção possui um perfil de alto consumo de matérias-primas e de energia, de emprego relativamente extensivo de uma mão-de-obra treinada para tarefas repetitivas e fragmentadas. No mundo do futuro, que já começou, o principal valor agregado dos produtos será a inteligência, a criatividade; o trabalho irá requerer sempre mais versatilidade, capacidade de reunir e filtrar informações, lidar com situações novas, interpretar códigos e linguagens em permanente transformação.

O II Encontro Internacional sobre Capital Intelectual, promovido pelo Banco Mundial em Paris, nos dias 29 e 30 de junho, mostrou o quanto o Brasil pode ficar para trás neste processo. A comunidade européia, o Japão e a Índia apresentaram seus projetos de inserção na Sociedade do Conhecimento, com programas de incentivo às empresas inovadoras de alto potencial de crescimento.

No caso brasileiro, a esperança veio da apresentação feita pelo BNDEs, de um fundo de incentivo às empresas inovadoras, que deve ser lançado até o final do ano (vide matéria BNDES aposta nos  capitais intangíveis).

Segundo Eduardo Rath Fingerl, diretor de Mercado de Capitais do banco, os ativos intangíveis pesam mais na competitividade dos países do que os ativos financeiros e tangíveis. De acordo com o Banco Mundial, os capitais intangíveis sustentam a atividade econômica (cerca de 78% da riqueza mundial) – e isso deveria estar na base de qualquer formulação de políticas pelas autoridades governamentais.  Dentro destes capitais intangíveis o conhecimento ocupa posição de destaque, mas ele não é algo que possa ser armazenado para ser procurado e acessado: ele deve ser produzido cada vez que é necessário!

O essencial, portanto, é que os países criem condições propícias para que ele "emerja". Isto envolve prover infra-estrutura (centros comunitários, redes, fios e computadores) mas, principalmente, ambiente e cultura organizacional adequados, com as pessoas devidamente capacitadas e organizadas em redes sociais.

É bem verdade que temos contra nós um ambiente vertical, de pouca participação social e com dificuldades claras para a inovação. Mas também é verdade que existe no país a cultura da adaptação e da improvisação, que pode ser transformada num importante diferencial a nosso favor. Temos uma grande facilidade em trabalhar em rede. Aí está, para comprovar esta tese, a taxa de ocupação do site de relacionamento Orkut, do Google, ocorrida a partir de 2005: em menos de um ano, os usuários brasileiros já representavam mais de 70% do total de participantes com intensa atividade de relacionamento.

Mas, para estruturar um novo projeto de país é necessário reformular nossos conceitos do que chamamos hoje de inclusão digital, tendo clareza da distinção entre informação e conhecimento.

O peixe atualmente vendido é: se vivemos em uma sociedade da INFORMAÇÃO, precisamos colocar as pessoas diante de um canal informativo sofisticado (computador) e elas estarão incluídas na tal sociedade. Mas se estamos em uma sociedade do CONHECIMENTO (ou queremos rumar para ela), temos que colocar as pessoas diante de uma porta de entrada sofisticada para esse novo mundo, com metodologias desenvolvidas para que os usuários possam entrar em contato com os espaços e as REDES de CONHECIMENTO, o que é completamente diferente.

Estamos falando em INCLUSÃO AO CONHECIMENTO, pela VIA DIGITAL E NÃO de INCLUSÃO DIGITAL (PARA À INFORMAÇÃO).

A confusão sobre os conceitos nos leva, portanto, a dois mundos COMPLETAMENTE DISTINTOS! Se estamos querendo construir uma sociedade da informação, tudo o que precisamos é de computadores, linhas telefônicas e alguns softwares. É exatamente desta maneira que a internet é vista pela grande maioria das pessoas. Mas se estamos querendo construir a sociedade do CONHECIMENTO, isto passa, NECESSARIAMENTE, pelas PESSOAS e pela construção de REDES SOCIAIS entre elas. Claro que para ajudar neste processo precisaremos dos computadores e dos cabos. Mas eles são acessórios e não a essência do processo.

Uma nova gestão pública, baseada nos ativos intangíveis – e no conhecimento em particular – é possível. As propostas e caminhos estão se tornando cada vez mais concretos e claros. Alguns ainda acham que é um sonho. Até a hora em que não estivermos mais sonhando sozinhos.


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Coordenador geral do Crie
destaques


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